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Escrito por Administrator   
Sáb, 24 de Abril de 2010 16:47

artur_leao.jpg Relanceando o olhar pelos acontecimentos que marcam, nestes dias, o quotidiano da nossa existência neste terceiro calhau contado a partir do astro-rei, múltiplos são os factos susceptíveis de adregarem a nossa atenção pelos cambiantes vários de que se revestem e atinentes a despoletar breves divagações, digamos que “deambulatórias” …mas, debrucemo-nos sobre alguns deles.

 

Comecemos pela força bruta da natureza, a reiterar de forma vincada o seu potencial de supremacia sobre a frágil acção humana: a súbita entrada em actividade do vulcão Eyjafjallajökull, na Islândia, projectou na atmosfera uma nuvem vulcânica de partículas abrasivas que já provocou mais prejuízos que o 11 de Setembro de 2001 ocorrido na América, devido às perturbações ligadas à aviação em toda a Europa. Portugal tem-se constituído como um oásis no deserto de poeira vulcânica que assolou a Europa, já que a nuvem, apesar de ter alcançado, com impacto nulo no tráfego aéreo, a zona noroeste da ilha de Santa Maria (Açores), ficou a mais de cem quilómetros do limite norte do nosso espaço aéreo continental, não obstante o congestionamento dos aeroportos lusos devido ao cancelamento compulsivo dos voos para os mais diversos destinos.

A propósito de tal, também o Presidente da República se viu constrangido a fazer a maior parte da viagem de regresso da sua visita oficial à República Checa por via terrestre, podendo nós inferir como tal se tenha revelado deveras embaraçoso, já que após sucessivos raspanetes com que o seu homólogo checo lhe azucrinou os ouvidos e se mostrou escandalizado com o facto do nosso país ter um défice excessivo – ainda que, neste caso, seja o “roto a falar do nu” porque os checos também são deficitários nas suas contas, embora numa escala menor que a nossa –, certamente a vontade presidencial seria a de regressar a todo o vapor e o mais rapidamente possível de tão incómodo lugar, evitando até possível conflito diplomático face à desfaçatez de um anfitrião que resolveu «meter a boca no trombone»: retirem-se pois ilações de tais viagens em tempo de crise, acompanhadas de um inenarrável séquito pródigo na sua extensão – há quem aproveite todas as oportunidades (oferecidas) para arejar –, pois para se ser «despedido» assim, com as “orelhas a arder”, mais vale ficar em casa…

Entretanto, dizem gurus da economia mundial com ligações ao Fundo Monetário Internacional (FMI) que Portugal, tal como a Grécia, está à beira da falência e que será o nosso país o próximo a estar no radar das atenções porque os políticos portugueses não estão preparados para lidar com a situação, uma vez que actuam segundo o chamado “esquema ponzi” – usado pelo americano Bernard Madoff, gestor de uma sociedade de investimentos das mais importantes de Wall Street, para cometer uma mega-fraude financeira que lhe valeu a prisão perpétua –, isto é, pedem emprestado a uns o dinheiro com que pagam as dívidas a outros, numa corrente contínua desafectada de produtividade e que, com o decorrer do tempo, conduz ao aniquilamento por aumento dos juros e exacerbamento incomportável de uma inadimplência que só pode transforma-se em… calote. O ministro das Finanças, que normalmente chega atrasado à realidade, considera tal apreciação externa como sendo disparatada e sem fundamentação sólida, referindo o antigo ministro Bagão Félix que se trata de um “alerta apocalíptico”, não obstante haver ténues esperanças de que tão negra previsão não venha a confirma-se… de todo. Mas, se Portugal tem de contribuir com 770 milhões de euros para ajudar à crise grega e não dispõe de dinheiro para tal, terá de pedi-lo emprestado e, com mais esse “buraco” associado aos inúmeros rombos de que a economia portuguesa padece – a título exemplificativo, 1000 milhões para a recuperação da Madeira e a recente liquidação, pelo estado, do tal “banco privado dos ricos” (BPP) que projecta, segundo um responsável da sociedade detentora do mesmo, custos para o erário público que poderão ascender aos 700 milhões de euros e que se constituem como encargos verdadeiramente loucos ao longo dos próximos anos –, certamente os prenúncios agoirentos que vêm do exterior serão tudo menos apaziguadores, sobretudo se conjugados com as previsões de mais desemprego e de uma economia anémica que, segundo o FMI, não crescerá além de 0,3% neste ano e de 0,7% no próximo ano, colocando os juros da dívida externa portuguesa sob forte pressão.

Já agora, deambulemos também pelo âmbito de quem se “mexe” bem no âmago dos prémios por resultados alcançados… questionemo-nos: se numa estrada esburacada houver uma única oficina de pneumáticos, será transcendente que a mesma apresente um volume de vendas superior ao normal? Se o negócio da pirotecnia estiver restringido a um único titular, a quem é que poderemos comprar os foguetes? Pois é, poderemos viver sem ler as notícias do jornal, ver a Sport TV, comer caldo verde ou até sem fumar, mas esta estranha mania que temos de recorrer à electricidade para fazer funcionar a varinha mágica ou simplesmente ligar o candeeiro de quarto para não nos deitarmos às apalpadelas é que nos “mata”… e nos choca: será extraordinário que uma empresa que presta um serviço exclusivo do qual todos nós necessitamos de forma indelével, consiga apresentar resultados acima da média? Nestas condições, se por um qualquer gestor – há quem diga que até um chimpanzé o conseguiria, mas porventura não porque perderia muito tempo a coçar-se no cadeirão da administração – não fossem apresentados resultados deveras significativos face ao fornecimento, sem mercado concorrencial, de um bem essencial à vida quotidiana de milhões de utentes, o mesmo só poderia ser considerado o mais incompetente dos trabalhadores. Daí que, não obstante a legalidade subjacente a tal, porque os accionistas deram a sua aquiescência a contratos mirabolantes deste jaez, seja absolutamente absurda a atribuição de um prémio pecuniário que atinge as raias do indizível, porque a ética que regula (ou não) as relações humanas a isso liminarmente se opõe: como é que pode não fazer “cócegas” mentais a alguém dito normal o facto da comissão executiva da EDP, composta por sete elementos, ter recebido no ano passado remunerações globais, entre ordenados e prémios, de cerca de 17,5 milhões de euros? Obsceno, sem dúvida… e o “regabofe” é para continuar, pois apesar do governo, através das empresas participadas pelo estado que são accionistas, ter dado ordens para haver cortes nas remunerações e prémios, tanto na EDP como na PT, tal nem sequer foi considerado na assembleia geral de accionistas, que passou por essas recomendações como “cão por vinha vindimada”, o que pode levar a inquirir-nos o que, afinal, manda o governo nestes tempos de neoliberalismo económico desenfreado. Mas também, depois da “mansidão” com que o nosso primeiro brindou o gestor em questão e aquando do lançamento, em Évora, do projecto “InovCity” da EDP, que poderíamos esperar, senão apenas os lamentos de vozes críticas, desde Manuel Alegre a António José Seguro, ou mesmo, de forma mais veemente, da eurodeputada Ana Gomes, que acusou o chefe do governo de «estarrecedora insensibilidade», escrevendo que «todos os elogios ao gestor, sem uma palavra de admoestação, a impor moderação, a pedir contenção, semelhante à que pede ao povo, a quem se impõem sacrifícios, é juntar ofensa à ferida». Pois é, o que é demais faz «saltar a tampa» ao mais impávido e sereno dos que se interessam pela ”coisa pública”, mesmo que imiscuídos no espectro partidário vigente, pois vislumbra-se claramente que, ao contrário da «inveja» argumentada pelos interessados, trata-se, isso sim e antes de tudo, de situações indecorosas de injustiça.

E já agora, para concluir estas deambulações pelas agruras da nossa existência, e a propósito duma reportagem sobre a “Festa da Flor”, havida recentemente no Funchal e que a pantalha sobranceira projecta neste momento em que é elaborado o presente escrito, ocorre-me ao pensamento uma notícia que li aquando do desastre que assolou a ilha, referindo que Timor-Leste tinha ofertado mais de 100 mil contos (556 mil euros, mais precisamente) para ajudar a colmatar os estragos provocados pela intempérie na Madeira. Este gesto nobre do governo timorense, e independentemente do drama que ainda afecta a “Pérola do Atlântico”, obriga a relembrar que, em Agosto de 1999, quando Timor era vergastado pela destruição provocada pelas milícias pró-Indonésia e por todo o mundo pululavam manifestações de solidariedade e o envio de ajuda financeira, na Madeira, as posições oficiais pautavam-se por orientações bem diferentes, com o seu governador-mor a garantir que a Madeira não daria “um tostão” para Timor e que não admitia que o estado português “mexesse” nas transferências a que a Região tinha direito: «Nem um tostão para Timor» e «A filosofia popular ensinou-me que cada um se deve governar por si» foram as sentenças proclamadas por Jardim, do alto da sua tonitruante arrogância e prosápia. Não poderemos deixar de reflectir e atentar nesta bofetada de luva branca que Ramos Horta e Xanana Gusmão, sem alarido e, de certeza, sem qualquer ressaibo, fizeram assentar de maneira exemplar para ajudar a estancar as escorrências lodosas com que a montanha pretendeu aplanar os vales: é que já esqueceram tais frases “mal-ditas” e, em vez de nem um tostão para a Madeira, Timor, não obstante ser um dos países mais pobres do mundo, oferece mais de dois euros a cada madeirense, contribuindo assim para ajudar a manter o bom nível de vida de uma Região que se apresenta com indicadores que a deixam como uma das mais ricas da União Europeia.

Pois é, como diz o anexim, "não cuspas para o ar que te pode cair de cima" ou, como sói dizer-se, foi perdida uma boa oportunidade para… ficar calado. Por isso não admira que o “não-apoio” de certas “figuraças” em momentos de grande visibilidade – como sucedeu há alguns dias em Mafra e, pouco depois, em Carcavelos –, ao contrário do que poderia supor-se, seja para os líderes ou apoiados… absoluto refrigério!

 

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