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Ter, 13 de Abril de 2010 13:19

cruzeiro1.jpg A cerca de nove quilómetros da sede do concelho, para ocidente, fica Alvarim, a maior e mais populosa localidade da freguesia de Dardavaz. Sobre o seu passado ancestral, é voz corrente na tradição oral popular que terá sido outrora vila, sob o nome de “Vilarim”. Porém, tal não corresponderá efectivamente à realidade histórica: na verdade, poderá aceitar-se que o lugar tenha sido habitado pelos mouros, pois no embrião do séc. VIII ocorreu a invasão muçulmana que subjugou quase toda a Península Ibérica, sendo certo que toda a região de Coimbra até ao Douro – onde, portanto, está incluída a zona do nosso concelho – terá sido ocupada pelos árabes, que não encontraram grande resistência pelas armas ao seu avanço e ocupação.

Porém, no reinado de Afonso III (866-910) restabeleceu-se o domínio cristão entre Douro e Mondego, com a reconquista aos mouros, ainda que transitória, pois de 967 em diante voltou esta região a ser dominada pelos sarracenos. Todavia, é cruzeiro2.jpg altamente provável que datará dessa época (fins do séc. IX e primórdios do séc. X) e devido a essa breve reconquista aos mouros por asturo-leoneses – os quais usaram o direito de presúria (apreensão dos bens de que a moirama se havia apoderado) sobre povoações, lugarejos, prédios rústicos e habitações neles existentes – que derivou, tal como tantos outros, o topónimo de origem germânica “Alvarim” que, segundo o historiador Amadeu Ferraz de Carvalho, deverá considerar-se o genitivo de “Alvarinu”, derivado do nome germânico cruzeiro3.jpg “Alvaro”, com o sufixo diminutivo “inus” (“Alvarinus”). Temos assim que o topónimo “Alvarim” provirá de um nome de pessoa, chamada “Álvaro”, que poderá eventualmente ter possuído neste local alguma terra ou herdade denominada, na época, por “cavalaria”, herdada como prémio pela ajuda que algum cavaleiro vilão terá dado aos cavaleiros nobres (milites), na luta contra os mouros durante a referida reconquista asturo-leonesa. Efectivamente, e segundo as “Inquirições” de 1258, feitas no reinado de D. Afonso III, havia em Alvarim «três “cavalarias” e meia» e em Dardavaz «três e meia e uma oitava». Aliás, para além de terras imunes, reguengos e outras ditas foreiras, são estes prédios rústicos, chamados a norte do Douro de “herdades de fossadeira” e aqui na nossa região de “cavalarias”, que avultam na zona de Besteiros.

E é com data de 14 de Julho de 1515 que D. Manuel I dá carta de foral ao concelho de Besteiros que, segundo arrolamento geral da população do reino feito treze anos depois da concessão deste mesmo foral, contava na altura com 989 moradores. Sendo cabeça do dito concelho o lugar de Molelos – e só mais tarde Tondela – que possuía 35 moradores, refere o aludido documento em relação a esse arrolamento geral da população que Alvarim, pertencente portanto ao citado concelho de Besteiros, tinha 23 moradores, a Chancela 3, os Outeiros 15, Dardavaz 11 e Várzea do Homem 6.

cruzeiro4.jpg Então, tal como nos nossos dias, já Alvarim era o mais povoado dos lugares da freguesia, cuja sede é Dardavaz porque nesse local foi construída a Igreja de Santa Maria de Dardavaz, ficando assim sendo a cabeça de paróquia e, mais tarde, devido ao peso dessa tradição ancestral da ligação do poder temporal com o poder espiritual, sede de freguesia.

cruzeiro5.jpg Deixando a perspectiva histórica e numa breve incursão parcial pelo presente, proceda-se a uma visita nocturna a um dos recantos mais emblemáticos da aldeia: o Largo do Cruzeiro. Situado na zona central da corda dorsal que atravessa longitudinalmente a localidade em questão, o airoso espaço público em referência viu-se alindado aquando das obras de requalificação do Parque de Lazer do Lameiro – conforme artigo atinente publicado em Janeiro e disponível na secção “Freguesias” (Dardavaz) deste jornal online –, também concluídas em Agosto do ano transacto, nomeadamente a nível do revestimento granítico das paredes laterais do fontanário, cobertura com telha regional do abrigo dos tanques públicos individuais e seu revestimento exterior também com placas de granito, saneamento das águas pluviais, limpeza profunda do cruzeiro – ex-líbris da povoação – e, primordialmente, para além do reforço da iluminação pública a nível aéreo, a tão desejada colocação de vários focos emergentes de luz a partir do solo. Tudo isto, complementado com o arranjo que tinha já sido feito atempadamente pela Comissão Fabriqueira da Igreja de Alvarim – que desemboca, a nascente, com o largo em questão – da escadaria central de acesso ao templo, bem como a construção de uma rampa lateral para pessoas com dificuldades de locomoção e que, com a requalificação do Largo, viu igualmente o respectivo adro beneficiar cruzeiro6.jpg da citada iluminação de afloramento à superfície do chão, resultando numa bela perspectiva se apreciada de noite, dadas as duas frondosas palmeiras focadas a partir da base do seu espique e que enquadram a fachada principal da construção também dotada, lateralmente, de dois focos.

Resultado final? Um quadro de luz nocturna a embelezar sobremaneira o local, fazendo sobressair, para além de um adro verdejante e da dita fachada alva da Igreja (benzida solenemente em Abril de 1990, reconvertida que foi a antiga Capela de S. Romão), um espaço sobranceiro convidativo a pedaços de descanso nas noites tépidas de Primavera ou mesmo na noctívaga canícula remanescente dos Estios, com um cruzeiro de pedra encimando três degraus, construído em 1950 por iniciativa da União Nacional e Junta de Freguesia, assinalando a Restauração da Independência (1640) e como “Recordação aos homens portugueses que descobriram e cristianisaram terras no mundo” (sic). Também a fonte, similar doutras várias construídas no concelho, pelo município, sobretudo na década de trinta do século passado, é digna de preservação, pela sua arquitectura e motivos pictóricos da cruzeiro7.jpg azulejaria específica que reveste a zona central donde irrompe a bica, agora transmudada em torneira por óbvios motivos de poupança do precioso líquido, que jorra a preceito, alimentada por uma nascente natural proveniente da mina da Fonte Arcada, desta mesma localidade. Já os tanques públicos individuais, em número de oito e ainda usados por algumas lavadeiras, são abastecidos por água canalizada a partir do poço do Parque do Lameiro, agora dissimulado subterraneamente mesmo ao lado do parque infantil daquele bem cuidado espaço de lazer.

Trata-se pois de um convidativo rossio central da localidade, cuja pulcritude actual afecta a laivos de urbanidade se deve à acção conjugada dos poderes públicos instituídos – Câmara Municipal e Junta de Freguesia – que, assim procedendo e uma vez mais, deram prossecução positiva ao desiderato de servir as populações em que se imiscuem, cumprindo com tal desígnios atreitos à missão para que foram fadados.

Pena que o Largo do Cruzeiro não tenha mais vida comunitária, sobretudo em termos de manifestações de índole recreativo-cultural, pois já serviu para tal em tempos de antanho – por exemplo, pequenas festas genuinamente populares, manifestações carnavalescas, fogueiras joaninas, dramatizações da paixão de Cristo, leilões e cortejos, corridas de S. Silvestre, futebol de rua, circos ambulantes, etc. – e quando estava longe das possibilidades que agora pode oferecer: porém, desde que um determinado “centralismo radical” se apossou de quem quase tudo faz “indoor”, resta ao local espraiar a sua luz nocturna difusa pelos transeuntes que por ele perpassam, prodigalizando-lhes uma calmaria benfazeja rumorejada pela torre e cruz iluminada do templo fronteiro.

Mas, há sempre um senão (ou mais) a destoar… para além das ruínas contínuas que, quiçá “ad eternum”, o bordejam e minoram no seu cotejo norte, ao contrário do enquadramento urbano realçado pela edificação feita do lado poente – e daí a insistência numa “visão nocturna” do Largo, aplanadora de assimetrias –, outro “handicap” bem mais fácil de solucionar se apresenta: na verdade, as vicissitudes do tempo vão, naturalmente, avariando os projectores de luz emanada a nível do solo e seria de muito bom tom que tal insuficiência fosse colmatada por quem de direito, porque agora são dois que não funcionam, amanhã serão mais e a obscuridade não deve ser apanágio deste logradouro público agora bem conseguido mas ostracizado desde tempos imemoriais, não havendo certamente ninguém que, gostando do seu rincão natal, aspire a um regresso à apagada e vil tristeza de épocas avoengas…

 

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