POSTAL DE LISBOA Imprimir
Escrito por DR. LEONEL MARCELINO   
Seg, 14 de Julho de 2014 18:35

TENHO MEDO DOS POLTICOS ILUMINADOS

Dr. Leonel Marcelino A poltica uma das actividades humanas mais nobres, mas tambm das mais exigentes. Um cidado que escolha entregar-se ao servio dos outros cidados, tem de ser impoluto, perfeitamente blindado contra actos de corrupo ou de favorecimento.

Os abusos esto-lhe interditos. Em todos os momentos, as suas energias, saberes, capacidades e competncias tm de colocar-se ao servio da justia, da solidariedade, do bem comum. Um poltico um cidado que serve os outros cidados e nunca pode satisfazer ambies pessoais e servir-se dos outros para realizar projectos pessoais.

Condenar os corruptos e os incompetentes, os prepotentes e soberbos no condenar a poltica: defend-la, lutar pela democracia, lutar contra o absentismo, o cepticismo, a indiferena. Na poltica, no se pode cultivar a lgica partidria ou de defesa do Partido e das suas convenincias como se se tratasse de um clube de futebol. Os cidados tm a obrigao de se informar, de investigar, de pensar, de recolher o maior nmero de dados para poderem escolher. Nunca se pode escolher pela cor da camisola.

Na actualidade poltica europeia, aceita-se, quase sem discusso, a destruio das mais-valias do trabalho, a destruio do estado social, o castigo dos que, alegadamente, viveram acima das suas posses, e por a fora, num nunca acabar de argumentos que defendem as teorias do neo-liberalismo, como se se tratasse de uma Bblia, embora o mundo tenha vindo a desmentir as suas virtudes que criaram misria em cima de misria, degradao da pessoa humana em cima da degradao da pessoa humana, o aumento do desemprego, o aprofundamento do empobrecimento dos povos e do fosso entre ricos e pobres, e por a fora.

Custa-me a perceber que nos oramentos, nunca sejam previstas verbas suficientes para sustentar o estado social, quando se incluem verbas para gastos suprfluos ou inteis. Todos ns temos conhecimento de realizao de obras dispendiosas e perfeitamente inteis ou, pelo menos, de duvidosa utilidade, perto de ns. Prestamos um enorme servio ao pas quando as denunciamos.

Pessoalmente, lembro-me, por exemplo, de, na zona onde vivo, se terem construdo rotundas por tudo quanto stio, mesmo que no exista, sequer, encontro de estradas, pois, na maior parte dos casos, as rotundas interrompem apenas o seguimento normal da via. No satisfeitos, pregam, agora, barreiras no asfalto, para rebentar com os carros. No so menos escandalosas as estradas de luxo construdas na serra algarvia, para passagem de coelhos e pouco mais.

Num stio, sem movimento que o justifique, andam a enterrar-se milhes em mais uma via luxuosa. Para no falarmos j das empresas criadas para gerir inutilidades, como sejam por exemplo, tarefas que deveriam pertencer s discotecas, como organizao de eventos de msica pimba, bailaricos, etc., com foguetrio, por d c aquela palha, enfim, um cortejo de delapidao do dinheiro dos contribuintes que faz tanta falta aos cidados e ao sustento do estado social, muito mais til e necessrio, sem dvida. Mas, esta gente pensa? Esta gente tem formao para a poltica?

Somos herdeiros de uma civilizao que lutou sempre para melhorar o viver em comum, somos herdeiros de uma cultura que tem lutado para tornar a terra habitvel por todos. O farol que deve guiar a nossa actividade , primeiro que tudo, a dignificao da pessoa humana. As instituies, a sociedade e as suas organizaes, enfim, o objectivo de toda a poltica deve estar ao servio da promoo do homem que, contudo, no pode ficar de braos cruzados, espera, mas deve participar, agarrar a aco, intervir.

E, ao contrrio da selvajaria, subentendida, do neoliberalismo, onde quem tem unhas que toca guitarra, o verdadeiro poltico tem de direccionar a sua ateno para os pobres, os fracos, os oprimidos, os que vivem sem voz, os que no tm quem os defenda. Eles no so parasitas, como defendem muitos iluminados da poltica, cada vez mais assustadores. No. Eles apenas no tiveram as mesmas oportunidades, por exemplo, quanto educao, quanto sade, quanto s capacidades genticas, quanto ao stio em que nasceram e vivem, quanto cultura, enfim, quanto a uma srie de factores que fazem com que uns tenham largas vias de sucesso estendidas sua frente, enquanto outros, tm de percorrer caminhos cheios de pedras, de barreiras, de isolamento.

Estas diferenas no podero ser corrigidas como deveres sociais? No h espao para a existncia de um Estado social!? Se o Estado no serve para corrigir as assimetrias, se os polticos no actuam para o bem comum, no lutam pela dignificao do homem, para que servem? Em vez de servirem o pas, so autnticos cancros que arrunam a poltica e a sociedade, qui a prpria civilizao.