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Sex, 30 de Agosto de 2013 11:34

Aldeia esteve cercada pelo fogo e foram retirados alguns idosos para a secção de S. João do Monte

A nossa reportagem andou por terras de Mosteirinho, freguesia que, por força da lei, se vai unir a S. João do Monte, que foi sede do concelho serrano no final do século XIX, a que aquela paróquia pertencia e que foi sempre um burgo quase esquecido dos poderes públicos, sendo ainda hoje uma região com orologia de território de difícil acesso, pelos seus vales fundos e vias estreitas e íngremes.

É neste quadro que o território se viu envolvido, nos dias 29 e 30 de Agosto, pelos acontecimentos dramáticos advindos do calamitoso incêndio florestal que lavrou na Serra do Caramulo, nascido logo depois de um outro que lavrou cerca de duas semanas, nas proximidades de Caselho, Pedronhe, Carvalhal da Mulher, Silvares, Muna de Besteiros, Paranho e Santiago de Besteiros, no qual morreram três bombeiros, entre eles duas jovens.

Além de que a devastação florestal é imensa e irrecuperável nos próximos anos, sendo certo que um eucalipto para corte, demora 9 anos a formar-se.

No dia 29, à tardinha, estivemos num local servido pela língua de alcatrão que, de Malhapão de Cima, conduz a Frágua e a Mosteirinho, por um lado e à Corte e Freimoninho, por outro e que serve, também, o Teixo e outras povoações da freguesia de S. João do Monte.

Os bombeiros de Tondela ficaram ali acantonados, junto a um tanque de água, com algumas viaturas, onde se via um helicóptero de uma empresa de celulose a operar nas imediações, tentando que o fogo não se encaminhasse para uma zona onde existe uma quase inacessível área florestal, de onde recebe madeira.

O fogo foi ali controlado e a corporação de Tondela preparava-se para regressar ao quartel, “para carregar baterias”, como dissera o comandante.

ALDEIA DE MOSTEIRINHO CERCADA PELO FOGO

Carlos Jorge, comandante dos Bombeiros Voluntários de Tondela, que acabara por passar pelas “brasas”, devido a uma noite mal dormida, junto ao tanque de água onde o helicóptero da celulose se abastecia, disse à nossa reportagem que um bombeiro seu lhe teria ligado a informar que uma senhora de Mosterinho lhe teria participado, muito aflita, porque “havia problemas” na aldeia”.

“Achámos por bem que, antes de nos irmos embora, haveríamos de ver que problemas eram esses”, lembrou o comandante. “Felizmente verificámos que não eram problemas graves, porque o pior já tinha passado, o fogo passou em volta da aldeia e foi-se embora”, referiu.

Bombeiro há dois anos, “nunca tinha assistido a um desenvolvimento tão rápido das chamas. Para mim foi uma grande surpresa, nem imaginava que ele pudesse desenvolver-se com tanta rapidez como foi esta noite (28 de Agosto)”, sustentou Toda a aldeia ficou cercada pelo fogo, havendo momentos de pânico, pois as pessoas, ao verem as suas casas e os seus haveres rodeados de fogo, “não é propriamente o cenário mais agradável”.
Quando os bombeiros de Tondela lá chegaram, os serviços de Protecção Civil da Câmara Municipal de Tondela, procediam à evacuação, para a secção de S. João do Monte dos Bombeiros Voluntários de Campo de Besteiros, de alguns dos idosos, aqueles mais debilitados, “devido à densa cortina de fumo que pairava sobre a aldeia”, enfatizou Carlos Jorge.

Quanto ao fim das operações de ataque ao fogo, Carlos Jorge não quis fazer previsões, dizendo que tanto poderia ser de um momento para o outro como “podemos andar aqui mais uns dias, a natureza é assim”, concluiu.

No dia seguinte, o fogo deu tréguas e tudo se acalmou, contudo, o rasto de destruição é desolador e é considerado como o maior desastre ambiental de sempre, ocorrido na Serra do Caramulo.

PREJUÍZOS INCALCULÁVEIS EM TRABALHO DE TRÊS GERAÇÕES

Já ao fundo de Malhapão, nas imediações do fogo, que lavrava, virulento, do outro lado do rio Agadão e, na estrada estreita, encontrava-se com seu filho Fernando, o antigo presidente da Junta de Freguesia de Mosteirinho, Agostinho dos Santos Gonçalves que, com os seus descendentes, é proprietário de vários terrenos com aptidões para a cultura do pinheiro e do eucalipto e que via a arder, sem que nada pudesse fazer para o impedir.

À nossa reportagem lamentava-se do sucedido, pois sem acessos, seria tudo pasto das chamas. “É uma miséria”, disse, “é trabalho de três gerações, dos meus avós, dos meus pais e agora de mim e também a dos meus filhos”, sustentou.

Sobre o montante dos prejuízos, disse que “isso é incalculável, para já é incalculável”, tendo-lhe ardido várias propriedades, para além da floresta, como sejam “terrenos de milho e de pastagem”, tendo afectado, praticamente, “todas as pessoas da aldeia e também de Almofala, do Teixo, aqui desta serra toda”, além do rio, como diz o povo.