POPULISMO, SONAMBULISMO, MANIPULAÇÃO

Os alertas desfilam diante dos nossos olhos, cada vez mais evidentes, mas, por circunstâncias diversas, não perdemos tempo com eles.

Preferimos olhá-los como próprios dos chamados tempos modernos. Ouvimos falar, com frequência, de maneiras de estar próprias da época que se vive.
Contribuímos, se não pararmos para pensar, se deixarmos que esta espécie de sonambulismo nos caracterize,  para criar as condições para que os populismos 
ganhem força e estilhassem a democracia representativa, o que, aliás, já está a acontecer, sem que haja fortes e consistentes reacções. 
Em todos os continentes, se impuseram já, regimes populistas, desaguando, uns, em ditaduras ruinosas, outros, em actuações mais sofisticadas, mas, não menos perigosas, de impor a vontade de um, como a única, a melhor, por vir de um iluminado, de um salvador do Povo. É ele contra o mundo. Torce, retorce, usa de todos os truques,  falsidades e manipulações para governar sem oposição, sem diálogo, sem debate.
As consequências são por demais visíveis: guerras por todo o lado, fugitivos transformados em emigrantes forçados e rejeitados, massacres de minorias, ocupações selvagens de territórios, como na Palestina, destruição das reservas naturais, poluição criminosa do planeta, ganância, exibicionismo, hipocrisia,  e agora com um ataque feroz aos Curdos! Fecham umas frentes de combate, abrem outras. Desumaniza-se a Humanidade. Regressa o trabalho escravo. 

TROCAR O CARRO ELÉCTRICO PELO BURRO

Duas correntes, fundamentalmente, contribuem para a desgovernação do mundo que sofremos na pele: o culto evangélico e a herança da ideologia comunista. As consequências conjugam-se e resultam em  medo, servidão, ódio, alienação, egoísmo e corrupção.
Vai-se às arcas bolorentas de um passado morto para se ressuscitar o criacionismo e a leitura da Bíblia à letra. Faz-se tábua rasa dos avanços civilizacionais que culminaram com a definição dos direitos e deveres das pessoas. Retrocedemos civilizacionalmente até aos povos protagonistas da Bíblia. É como se trocássemos o carro eléctrico pelo burro. O culto evangélico, que inspira Bolsonaro e a ala mais reaccionária dos republicanos americanos, só é possível pela forte ignorância, pelo propósito de anular o outro, de impedir o diálogo, a solidariedade, a compreensão, o próprio perdão.  
É o poder de quem lê os textos à sua maneira e os impõe. Esse poder, de que se apropriam sacrilegamente, configura uma ditadura religiosa.
Abundam os trumps, os bolsonaros, os chavistas, os fidelistas, os ditadores de pacotilha. Quantos heróis que chegaram ao poder pela revolução ou pelo voto, 
acabaram manipulando o povo para se “governarem” e reduzirem os adversários a inimigos da Pátria, prendendo-os, assassinando-os, difamando-os. Quantos passaram de heróis aclamados a ditadores odiados, na América, na Ásia, em África. 

REVOLUÇÃO DO PROGRESSO HUMANO PARTILHADO

  • Por outro lado, nos países de influência comunista, quantas vezes ouvimos invocar o colonialismo e o neocolonialismo, bandeiras populistas, como fundamento de todos os males que atormentam as populações? Nunca aceitam que a raiz do mal está na sua incompetência, na sua incapacidade para se modernizarem, se informarem e formarem, roídos pelo ódio, pela inveja, pela ganância e corrupção. Não aceitam as culpas próprias, como um ensino desadequado, arcaico, politizado, incapaz de formar cidadãos livres, interventivos, inovadores, preparados para a única revolução que vale a pena – aquela que trabalha para um progresso humano partilhado, sem privilegiados nem escravos, nem perseguidos por motivos de origem, de raça, de cultura, de religião, da cor da pele, ou outros.
    Por outro lado, ainda praticam uma economia baseada em planos quinquenais falhados, que usa o proteccionismo como arma, em vez de se prepararem para a competição e a partilha. O proteccionismo, usado pelos regimes comunistas, alimenta a ignorância, coarcta a liberdade e impede a autêntica libertação. 
    A tudo isto, acrescentem-se traços culturais que, se não matam, impedem um progresso sustentado. Falemos, por exemplo, das consequências do mal de inveja, do recurso aos feiticeiros, dos casamentos prematuros, das queimadas, da ganância, da corrupção, do valor que se dá à forma e do desprezo pelo conteúdo. Nestes países, tem mais valor o parecer-se que o ser-se. 
    Muito mais haveria a dizer, mas, como alertas que pretendem dar uma ajuda, já basta. Contudo, ainda quero repisar que muitos dos males apontados só têm uma solução: apostar num ensino moderno, pragmático, construtor de cidadãos interventivos, com uma profissão definida, inovadores, revolucionários, 
    no sentido de que terão a responsabilidade de criar países onde todos tenham direito a ser felizes.
  • ADEPTOS DAS IDEIAS DE HITLER
  • Mas, a Europa, o continente que exportou a democracia, dá já sinais de desagregação, de desrespeito pelas regras institucionais, vítima de movimentos e de acções de pseudo-amigos do Povo. Assim aconteceu com o “Brexit”, assim se deixam morrer nos mares os fugitivos de guerras caucionadas pelos donos das armas, se matam à fome multidões, se perseguem minorias, se elegem indivíduos da extrema-direita, defensores do fascismo, adeptos declarados das ideias de Hitler, como a perseguição aos ciganos, aos judeus, aos estrangeiros, sobretudo se forem negros. Assim testemunhamos a progressiva degradação de um estado de direito assente em regras democráticas. Aí estão já a actuar no Parlamento europeu e nalguns parlamentos nacionais.

Nas últimas eleições, em Portugal, também já fomos contemplados com um exemplar que só o nosso sonambulismo promoveu. Andamos a dormir para gáudio de populistas perigosos que, se continuarmos a abster-nos, em breve nos conduzirão ao caos.

E, como todos sabemos por experiência, o caos é a sepultura dos direitos democráticos. Fica um alerta para os povos africanos que, em breve, vão a eleições. 
Não se deixem manipular por falsas bandeiras inimigas, por discursos inflamados, aparentemente, muito patrióticos, com o único objectivo de conquistarem o poder e “governarem-se”.
                                                                                                                                                                                                      LEONEL MARCELINO