Emigrantes enchem a cidade e as aldeias de Tondela
Há uma altura do ano que muita gente detesta, eu, pelo contrário, espero por ela com um carinho difícil de explicar. Julho e Agosto chegam e, de repente, as aldeias voltam a ter vida, as cidades ganham outro sotaque e as praias enchem-se de rostos que só aparecem uma vez por ano. E eu fico a observá-los, sorrio em silêncio e penso: eu conheço-vos, já fui um de vocês.
Já não faço aquelas viagens perigosas e intermináveis de carro, já não entro num avião com a ansiedade de quem só quer chegar depressa a casa, já não conto os meses até às férias, nem faço a contagem decrescente para abraçar quem ficou. Agora já vivo mais cá, mas a verdade é que há uma parte de mim que nunca deixou de viver lá.
Quando os ouço dizer “merci”, “poubelle” ou lhes escapa um “sorry” sem darem por isso, eu percebo-os perfeitamente. Não é apenas uma palavra, é uma vida inteira vivida entre dois países, duas culturas, duas formas de estar.

É nestes dias que percebo, mais do que nunca, que há pessoas que vivem num lugar que não aparece nos mapas, nem é totalmente aqui, nem completamente lá. É um território feito de saudade, de memórias e de partidas, um lugar onde só parece existir durante o mês de agosto.
Esta também é a minha gente. São como aves migratórias, regressam todos os anos ao mesmo ninho, enchem-no de risos, de abraços, de histórias e de vida… e, quando mal nos habituámos à sua presença, voltam a partir.
Eu sei exatamente o que lhes vai na alma. Conheço aquele olhar demorado à mesa, como quem tenta gravar cada rosto para os meses que aí vêm, conheço a pressa de viver tudo, de rever todos, de aproveitar cada jantar, cada festa da terra, cada café, cada passeio. Conheço a angústia silenciosa de ver o calendário avançar demasiado depressa e de saber que, dentro de poucos dias, será preciso voltar a repartir o coração.
Durante essas três semanas, parece que o mundo pára, não há horários, não há rotina, não há preocupações. Só há família, amigos, gargalhadas, há o matar saudades.
Mas quem nunca foi emigrante talvez não perceba uma coisa, eles não estão de férias, estão a viver um ano inteiro em apenas três semanas.
E eu, que já não faço essas viagens, fico a vê-los chegar e a vê-los partir com uma nostalgia difícil de explicar. Não tenho saudades da distância, nem do sacrifício. Tenho saudades da intensidade com que se vivia cada regresso, porque há momentos da vida que só quem foi emigrante consegue compreender.
E, sempre que eles chegam, lembro-me de quanto fui feliz, mesmo sem o saber.
NOTA DO DIRECTOR – Este artigo, é da autoria do amigo José António Coimbra de Matos, nosso conterrâneo e que publicamos, com muito gosto, porque apreciámos, imenso, tudo aquilo que ele escreveu nas redes sociais, nós, que também fomos emigrantes em Lourenço Marques – terra linda do Índico edificada por portugueses desde 1504 – mas apenas por uns escassos 18 meses (1970/71) e de que tantas saudades temos.
Com a devida vénia, aqui deixamos este trabalho que ficará a ser visto em todo o mundo. Obrigado, Zé António.











