UM CARNAVAL PERMANENTE

Portugal tem vivido num Carnaval permanente, de máscaras, disfarces e foliões nesta legislatura.

Para quê invocar os gregos que começaram a festejar o Carnaval em ação de graças. Não, não, nos nossos dias o Carnaval é – salvo raras exceções – sinónimo de máscaras, desfiles, disfarces, em grande parte importado dos trópicos, cujo clima, está bem de ver, é igual ao de Portugal (perdoem-me a ironia).

Mal, mal, é o Carnaval de Veneza. Valham-nos as tradições dos caretos, entre outras, que ao menos estes são genuínos.

Todavia, a verdade é que Portugal tem vivido num Carnaval permanente, de máscaras, disfarces e foliões nesta legislatura.

  1. A Assembleia da República fiscaliza o Governo? Só pode ser brincadeira de Carnaval e ninguém leva a mal. Afinal é Carnaval, somos todos amigos. Qual o mal?
  2. Oposição? Qual oposição? Estatuto da oposição para quem nem existe, excepto algumas ovelhas tresmalhadas (e até estas estão disfarçadas de ovelhas!!!). Até temos todos o mesmo lema: “Portugal Melhor.” Se alguém não quer brincar a este Carnaval, que fique em casa e não nos interrompa a festa.
  3. Famílias no mesmo Conselho de Ministros, sucessões “monárquicas”, nepotismo? Falam em impedimentos? Que coisas são essas? Está tudo bem. Não são famílias. Estão é mascarados de “famiglias”.
  4. Condicionamento de instituições independentes? Não condicionamos nada, só o trajeto dos carros de corso, não vá alguém ser inconveniente.

Não há mal nenhum em tentar politizar a Justiça ou pôr a Inspeção-Geral de Finanças a fiscalizar o Banco de Portugal. Tais situações nem dependeriam do Governo. O Governo é que depende delas. Vamos fazer um carro alegórico para esses casos.

  1. Condicionar os media? Ora, esses são foliões permanentes. Nós, depois, definimos-lhes o tempo de Carnaval, porque isso de independências também tem de acabar.
  2. Não apresentam Orçamentos retificativos? Para quê, se podemos cativar? Transparência? Essa agora, que importa que as cativações, em três anos, sejam superiores às da legislatura anterior? Mas assim ninguém nota que é sempre época de Carnaval.
  3. O PS levou o país à bancarrota? Só pode ser anedota de Carnaval. Que ponham a outros a máscara de Sócrates: ele nem estava lá aquando da dita. Era outro, mascarado. E mascarados estão os atuais membros do Governo, que também foram membros do Governo do mascarado, que diziam ser Sócrates.
  4. Os serviços públicos até melhoraram: o que tem de mal esperar um ou dois anos por uma pensão de reforma? É pôr a máscara da fome. É Carnaval.
  5. Uma consulta no SNS ou qualquer intervenção espera meses ou anos? Ponha uma caraça, que até lá disfarça, embora, claro, isso possa vir a trazer uma Páscoa antecipada.
  6. Essa de faltarem meios nos tribunais, com greves a atrasarem julgamentos, que, concedo, nem nos tempos da bancarrota faltaram; as festas, drogas, telemóveis, tudo em direto e ao vivo das cadeias? Ora, Carnaval antecipado e tempo de férias. Não tem nada de mal. É Carnaval.
  7. Transportes públicos e com deficiências? Mera brincadeira para não se trabalhar tanto. É Carnaval.
  8. Furtos de material de guerra? Mas eles estão todos no sítio. Foi mera brincadeira de foliões.

Grandes malandros os que não aceitam esta forma de governar. Estão de Carnaval há mais de três anos e ainda por cima não agradecem. Querem levar tudo a sério. São uns ressabiados, evidentemente. Não podem estar neste Carnaval, é claro.

NOTA: Autora escreve segundo a nova ortografia. As fotos são da responsabilidade do “Beirão Online”

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