POSTAL DE LISBOA – Os cancros das ditaduras

A ditadura é autofágica, isto é, alimenta-se de si própria, até não restar mais que um amontoado de ossos carcomidos.

O ditador aparece sempre como o salvador da Pátria, o único que ama o seu país, o único que sabe o que é bom para o defender de inimigos internos e externos. Rodeia-se de lacaios que comem as sobras caídas da mesa do poder e lhe criam a ilusão de Pai da Pátria. Depois, vem a teia burocrática, a censura, a eliminação de quantos ousarem discordar do Sábio-Mor.

Gradualmente, vai cavando o deserto à sua volta: uns são presos, outros deportados, outros mortos, outros nomeados para cargos enfeitados de penas de pavão, sem poder real. Junto dele, ficam os que não oferecem perigo, os que dizem sempre sim, os que nunca ousam ser críticos, dar um conselho, manifestar um alerta. Na comunicação social, estrategicamente, espalham-se uns tantos fieis que tratam como inimigos aqueles que ousem questionar a sábia governação em andamento, que inventam factos eleitoralistas, que propagam, em suma, as conquistas duvidosas do líder, esquecendo a fome, a miséria, a realidade que atormenta o povo, em geral.

O mundo real esconde-se atrás da propaganda. Às pantalhas só interessam as fantasias encenadas, com cortejos festivaleiros pelo país, sob enorme vigilância policial, surripiando às ruas escolhidas todos quantos possam atrever-se a lançar um grito contraditório. Só ficam os portadores das bandeiras do Partido no poder, os militantes que sabem as frases e os gritos de cor, os que têm medo, os que precisam de dizer sim para sobreviverem. É um espectáculo degradante e lamentável que incha o ditador, qual pavão colorido, mas que contribui para arruinar o país e aumentar a miséria.

Na verdade, não há génios da política, não há iluminados que, sem a colaboração de todos os cidadãos, consigam pôr a funcionar um projecto sério para um país. Quando a comunicação social não tem liberdade, quando a opinião pública depende do poder político e cultiva o encómio fácil de quem o detém, está-se a um passo do fracasso.

“Sem uma oposição livre, sem uma comunicação social independente, erguer-se-à, sempre, um cortejo de mentiras e de corruptos, cada vez mais descarados”

O desastre será tanto maior quanto se recusar a palavra livre aos opositores, quanto mais se criarem mentiras que desacreditem quem não for poder, quanto mais frequentemente se eliminarem, silenciosamente, os que ousem incomodar os donos dos palanques. Sem uma oposição livre, sem uma comunicação social independente, erguer-se-á, sempre, um cortejo de mentiras, de perseguições, de corruptos cada vez mais descarados, cada vez mais ousados. Um ditador tem sempre medo de perder o poder, pois sabe que haverá um julgamento, tantas vezes, tão cruel como foi a sua governação.

Quem semeia ventos, colhe tempestades. Por isso se sacrifica, diz ele, para salvar o povo. E o povo não lhe agradece, o ingrato. Não percebe que o país é diferente do que interiorizou na sua cabeça. Não percebe, ajudado pelos lacaios, que não criou um país desenvolvido, livre, com futuro, mas só contribuiu para aumentar a miséria e destruir os sonhos dos cidadãos, ao eliminar os melhores, matando-os, encarcerando-os, exilando-os, arruinando-lhes o prestígio com mentiras e outros artifícios.

“Um país de sucesso só se constrói, quando colocarmos o Povo acima do Estado”

Um país de sucesso só é possível com a colaboração de todos os cidadãos, com uma comunicação social livre, com a verdade de todos e não apenas de alguns, com Partidos políticos livres e respeitados, seja qual for a sua ideologia. Um país de sucesso só é possível quando, com transparência, se promove uma educação, uma saúde, um apoio social e trabalho para todos, o que equivale a dizer que um país de sucesso só se constrói, quando colocamos o Povo acima do Estado, pois, sem Povo, nem sequer há Estado.

Um país de sucesso só existe se todos os cidadãos forem respeitados, considerados indispensáveis, dando-lhes as mesmas oportunidades de existirem e de realizarem os seus sonhos. Não há sucesso sem um diálogo sério, franco, leal, construtivo, aberto e abrangente.