POSTAL DE LISBOA – A África tem de crescer

tempo de leitura: 3 minutos

África é um continente rico, desafiante, com todas as potencialidades para construir países viáveis, prósperos, com gente feliz sem lágrimas.

Talvez por isso, por ser demasiado apetecível, atraia tantos interesses, tantos falsos amigos, tanta corrupção, tantas negociatas ruinosas, tantas disputas, guerras, guerrinhas, jogos de poder, vaidades, desastres. O exemplo de Angola é ilustrativo. Angola, que conheço por lá ter vivido, é um país que, se se dedicar, com sensatez e ciência, ao cultivo da terra e ao turismo, terá, só por si, os meios necessários para ninguém morrer de fome.

Mas, tendo sido abençoada com muitos mais recursos, sendo, sem dúvida, um dos países mais ricos do mundo, há meia dúzia de elites que se afogam em dinheiro, e milhões de cidadãos que esgaravatam nos contentores do lixo, como vi em Luanda, uns restos de comida para enganarem a fome.

Quem conhece alguns países africanos, consegue facilmente identificar alguns erros que conduzem ao fracasso das políticas e à ruina geral. Por exemplo, a escolha dos parceiros. Não são amigos os que despejam dinheiro em África, ou os que compram tudo e todos para realizarem os seus fins. Esses fixam-se, prioritariamente, no saque de riquezas, na apropriação das reservas naturais, da madeira, dos minérios e até, para não dizer sobretudo, das terras.

Normalmente, os políticos dão-se bem com esses parceiros. Mas, rejeitam os que querem partilhar conhecimentos, mais-valias, criam empregos e riqueza social, melhoram as infra-estruturas, contribuem para um desenvolvimento sustentado. Muitas vezes, fazem-no por puro racismo ou traumas do passado colonialista sem cuidarem que as novas gerações estão inocentes.

Aliás, o ódio ao antigo colonizador é um bom pretexto para encontrar o responsável por todos os fracassos, como se o passado não pudesse ser ultrapassado e se transforme num ferrete para a eternidade. Incompetência e ódio a quem é capaz de fazer. Às vezes, inventam-se meras questões burocráticas facilmente resolúveis, se houvesse interesse para tal. É profundamente errado e ruinoso.

Outro mal de África está nas escolas e nas universidades. Em tempo de Internet, tem de haver uma aposta muito forte nas novas tecnologias, numa pedagogia invertida, para escapar à falta de formação dos professores, abrir os espíritos para uma formação universal, para promover cidadãos globalizados, escapar aos interesses miudinhos de formadores miudinhos, com medo de perderem os “tachos” e as influências.

Vale a pena investir astronomicamente em escolas modernas, em textos diferentes, em mentalidades abertas, numa educação desempoeirada, liberta de influências partidárias e ideologias limitadas e limitadoras. A educação não pode estar refém de interesses partidários ou de uma cultura étnica. Nisso está o futuro dos países africanos. A educação, nos moldes actuais, será sempre mais dispendiosa. E inútil. Ou mudam a educação, ou não haverá futuro.

«Os políticos, no geral, têm falta de formação e de visão política. Obedecem a directrizes dos partidos»

Os políticos, no geral, têm falta de formação e de visão política. Obedecem a directrizes dos partidos, o que equivale a dizer que definem metas internas para o Partido e os camaradas, que, depois, impõem ao povo. O pior que pode acontecer a um país, seja africano, seja de onde for, é ter um partido maioritário habituado a querer, a mandar, a impor. Um país sem uma oposição forte e respeitada é sempre um país condenado a afogar-se em corrupção, em interesses partidários, em atraso, em miséria, em ruinas.

Um país com um partido que se apodera do poder, que não respeita a oposição, que a humilha diariamente, que a afronta e a despreza, não tem viabilidade. Na cultura africana, tantas vezes invocada por qualquer pretexto para tudo justificar, nunca se deve esquecer que o poder é importante, mas, também, nunca se pode esquecer que a humilhação gera ódios e vinganças. Veja-se, uma vez mais, o exemplo de Angola e o exemplo de Portugal durante a ditadura, o exemplo de qualquer país onde uns mandam e os outros têm de obedecer servilmente, sem levantar ondas, sob pena de morrerem, ou desaparecerem, misteriosamente.

Qualquer país que desrespeitar a oposição, que não dê liberdade de escolha aos seus cidadãos, está condenado ao fracasso, à ingovernabilidade, à corrupção, à defesa das mordomias individuais, familiares, étnicas, regionais, perdendo de vista a qualidade de vida para todos. Geralmente, os donos do Partido maioritário julgam-se os donos do país. Só eles são os patriotas, os conhecedores, os capazes, os sábios, os organizados, os civilizados. Os outros serão sempre bandos de facínoras atrevidos, incapazes, bandoleiros. Ridículo!

Angola e Portugal são, actualmente, dois bons exemplos de que, sem democracia, os países tornam-se inviáveis. O mundo dos sábios de uma banda só já era.