POSTAL DE LISBOA – A MÃE DE TODAS AS PROFISSÕES

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É frequente ouvirmos um cidadão relembrar este ou aquele professor que, de algum modo, o marcou para a vida, de um modo positivo ou negativo.

Há, contudo, outros inúmeros indicadores que não deixam dúvidas acerca da importância dos professores na sociedade. Deixem-me fazer esta síntese – sem professores, as sociedades sobrevivem, mas, com os professores, o mundo pode tornar-se melhor. Numa certa perspectiva, a da formação dos cidadãos para a cidadania, todas as outras profissões nascem na maternidade da docência. O professor, ele próprio, a sociedade em geral e, obviamente, o Estado, não podem, em momento algum, esquecer-se dessa verdade, sob pena de se autodestruírem: o Estado, o professor, a sociedade.

A responsabilidade que o docente carrega impõe-lhe a construção de um estatuto com alguns pilares bem distintos, como sejam, a dignidade, o respeito por si e pelos outros, a credibilidade, a formação científica que inclui, nos nossos dias, o domínio das novas tecnologias, a consciência da sua influência como modelo para os alunos e para a sociedade, o que lhe impõe a tolerância, a capacidade para dialogar, ouvir, aprender, estimular a inovação, a curiosidade, a criatividade, o espírito de trabalho, atenção aos problemas da comunidade, respeitador do ambiente, lutador com disponibilidade para nunca desistir de um mundo melhor. A atitude, nas aulas e fora delas, tem de ser positiva, pois os olhos das crianças, dos pais, da sociedade envolvente nunca o largarão. Enfim, muitas mais características poderíamos apontar ao professor dos nossos dias, mas, há uma que não podemos esquecer e que, de certo modo, resume todas as outras: mais que o saber científico, mais que o cumprimento dos programas, mais que o preenchimento de todas as burocracias em que esteja envolvido, é muito importante que nunca se esqueça de que é uma pessoa, o que implica que, em todas as suas acções, privilegie o seu lado humano. Repetimos: a sua dignidade, a sua tolerância, a atitude, a militância pelo meio ambiente e pelo bem-estar dos seres que o habitam, a abertura para ouvir e interessar-se, para cooperar, para incentivar, despertar e reforçar a curiosidade, a coragem, a consciência, o respeito, serão os aliados que o ajudarão no exercício correcto de uma profissão tão digna e tão importante.

Alguns poderão pensar que tudo isto não passa de lirismo, mas, à medida que fui evoluindo como professor, aprendendo no dia-a-dia das aulas, corrigindo erros tremendos, senti que a minha tarefa só começou a dar-me prazer, quando deixei vir ao de cima o lado humano, dando-lhe uma importância que, muitas vezes, o professor tende a esquecer, assoberbado por tarefas que lhe parecem prioritárias.

Um dos erros mais graves é educar, como hoje se diz, para a competitividade, em vez de para a comunidade. A educação para a competitividade criou a civilização dos conflitos, das guerras, do apagamento das pessoas substituídas por algarismos e estatísticas. A educação para a competitividade está na raiz da desumanização da civilização, de que tanto nos queixamos. Se queremos um mundo melhor, o professor tem de apostar na humanização da educação. Nenhum professor conseguirá levar a cabo a sua função, se não sentir prazer nas aulas, no contacto com os alunos, em tudo quanto partilha. Sem entusiasmo, sem carisma, sem envolvência, dificilmente será um Professor.

Leonel Marcelino