“NA COVA DO LOBO NÃO HÁ ATEUS”

A entrevista de João Céu e Silva (“Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes”, Porto Editora), a Lobo Antunes, alertou-me para uma outra possível abordagem do tema da existência de Deus, embora mantendo o essencial do que penso, um pouco diferente do que pensa o escritor.

João Céu e Silva, a certa altura, coloca esta pergunta, a Lobo Antunes: “- A propósito do rezar de Orson Welles, qual é a sua posição sobre a religião?”, ao que o escritor renomado respondeu:

– Há um velho provérbio húngaro que diz: “Na cova do lobo não há ateus. Eu julgo que não existe quem não acredite, porque o Nada não existe na Física ou na Biologia e quando se lêem os grandes físicos – Einstein, Max Planck e por aí fora –, vê-se que eram homens profundamente crentes. Chegaram a Deus através da Física e da Matemática e falavam de Deus de uma maneira fascinante. A minha relação é a de um espírito naturalmente religioso – e cada vez mais –, embora não no sentido desta ou daquela Igreja mas naquele que me parece que a ideia de Deus é óbvia. Cada vez o é mais para mim”.

As várias religiões que foram sendo edificadas pelos homens têm mais a ver com questões humanas que com a existência de Deus. Se fosse tentado a acreditar que cada religião é criação de Deus, decidiria, sem hesitar, pela não existência de Deus, tais e tantos são os erros, tais e tantas são as marcas dos defeitos mais fundos da alma humana, tanta é a pequenez a que reduzem Deus.

O Homem tende a sentir-se um ser solitário. Falta-lhe algo. Uma espécie de fome e sede não identificadas. Angustiantes. Sofre de um não-sei-quê. Enquanto uns se interrogam, outros vivem como “Deus quer”, afirmam. As bem-aventuranças pertencem ao Homem, enquanto as mal-aventuranças são culpa de Deus. Ora aqui é que, tantas vezes, ao atribuirmos a Deus uma responsabilidade que é dos homens, e só dos homens, de um modo simplório e comercial, se conclui que Deus não existe, pois, se existisse, não morreriam tantas criancinhas, não haveria tantas mortandades por fomes, guerras e tantas outras calamidades. É a maneira mais irresponsável de ver o problema.

“Confunde-me tanta estupidez, tanta ignorância”

Confunde-me tanta estupidez, tanta ignorância, tanto vendilhão do Templo. Que Deus seria este que olhasse para os homens como filhos desprotegidos, precisando de miminhos e de boas acções, de incentivos, como dizem os pais modernos que trocam educação por actos de chantagem. O mesmo aconteceria com este Deus Todo Poderoso que reservaria o Paraíso para os bem comportados e o Inferno para os que se portam mal. Seríamos apenas as tais ovelhas e cordeiros bem comportados que Deus controlaria a seu bel desígnio.

Gil Vicente, numa época em que a Igreja Católica churrascava pessoas como leitões no espeto, falou de livre alvedrio, isto é, mais palavra menos palavra, a liberdade de o Homem poder fazer as suas escolhas. O Bem e o Mal existem no Homem. Cabe-lhe escolher. Não é Deus que falha ao Homem. É o Homem que falha a si mesmo. Quando escolhe criar situações de guerra, de fome, de doença, de calamidades, de irresponsabilidade, a culpa é do Homem. Nunca é de Deus.

Que dignidade teria o Homem se fosse o cordeirinho de Deus? Se não tivesse a liberdade de optar por um caminho ou por outro? O homem digno de ser Homem vive para a responsabilidade de criar o Bem Comum, de lutar por uma civilização mais justa, mais fraterna, mais amiga do outro e do seu habitat. Se opta pelos desequilíbrios, desagua no caos. Na infelicidade. Há Deus? Não há Deus? Cada um, em dado momento da caminhada, vai encontrar a sua resposta. 

LEONEL MARCELINO

 

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