SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESSEN

  • Da lei da morte já se libertou Sophia de Mello Breyner Andressen, cujo centenário do nascimento ocorreu em 6 de Novembro. Em homenagem à poetiza, o Dr. Leonel Marcelino enviou-nos este poema, que passamos a transcrever na íntegra e a sua própria análise à obra:

As diversas artes poéticas de Sophia (conheço, pelo menos, cinco, em prosa) ajudam-nos, não só a entender a sua poesia, como ainda a perceber o fenómeno da criação artística.

Descobrimos, ali, os objectivos que procurou atingir: a atenção ao real material e humano, a lucidez para festejar a beleza e a capacidade para sofrer com a dor, o envolvimento com a sociedade e os seus problemas, a busca da verdade e da dignidade, a promoção de uma consciência cívica empenhada. Inventar beleza e lutar pela dignificação da pessoa humana são dois pólos sempre presentes na obra poética de Sophia de Mello Breyner Andressen.

Mas, não só.

Muito se tem debatido acerca do papel do poeta e da poesia. Há quem defenda o poeta como um artífice da palavra, um embelezador da realidade, misterioso, divertido, sem sentido social, mas, Sophia de Mello Breyner enfileira ao lado dos que cultivam a poesia como algo de importante, não só do ponto de vista artístico, mas muito do ponto de vista social, pois sendo o poeta um ser de uma sensibilidade apurada, dificilmente poderia alhear-se do mundo para se recrear apenas com a palavra. O poeta usa a sua arte não só para prender a realidade mas, quase me apetece dizer, sobretudo, para, com ela, se transformar, como voz de combate, num instrumento importantíssimo no panorama da luta pela liberdade e pela dignidade do ser.

O texto seguinte, na prática mais uma Arte Poética, é quase uma síntese do seu pensamento sobre poesia.

Poema

  • A minha vida é o mar o Abril a rua
  • O meu interior é uma atenção voltada para fora
  • O meu viver escuta
  • A frase que de coisa em coisa silabada
  • Grava no espaço e no tempo a sua escrita
  • Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
  • Sabendo que o real o mostrará
  • Não tenho explicações
  • Olho e confronto
  • E por método é nu meu pensamento
  • A terra o sol o vento o mar
  • São a minha biografia e são meu rosto
  • Por isso não me peçam cartão de identidade
  • Pois nenhum outro senão o mundo tenho
  • Não me peçam opiniões nem entrevistas
  • Não me perguntem datas nem moradas
  • De tudo quanto vejo me acrescento
  • E a hora da minha morte aflora lentamente
  • Cada dia preparada

Quando levantamos as palavras de um texto, abrimos um mundo de surpresas. Mas, sobretudo, temos a possibilidade de melhor entender as intenções do autor. Em todo o poema, existe apenas um adjectivo: “nu”

(v. 10: e nu meu pensamento) o que não é muito habitual num texto poético, quase sempre carregado de adjectivos que transpiram subjectividade. Isso pode dar-nos uma pista. Embora a poetisa, de certo modo, desnude aspectos da sua maneira muito pessoal de estar na vida, ela quer, no entanto, fazê-lo de um modo objectivo, racional, reflectido, fruto de uma escolha, que presidiu à sua passagem pela vida: atenta à realidade, despida de pré-conceitos, de consciência tranquila, enriquecendo-se com as experiências, amante da natureza, incapaz de impor as suas explicações, receptiva, simples, artista: “O meu viver escuta/ A frase que de coisa em coisa silabada/Grava no espaço e no tempo a sua escrita”, “Não tenho explicações/Olho e confronto/E por método é nu meu pensamento”.

O verso “ O meu interior é uma atenção voltada para fora” é como que a chave do poema e dá-nos o tema ( a ideia) que o despoletou: o mundo interior é a síntese do mundo de fora, olhado, confrontado, analisado, escrutinado, identificado: “por isso não me peçam cartão de identidade/Pois nenhum outro senão o mundo tenho”. O fora e o dentro não são duas faces do sujeito, mas uma só, a síntese da vida – caminho percorrido como preparação para a morte: “E a hora da minha morte aflora lentamente/cada dia preparada”. Poderemos, pois, afirmar que o tema do texto é uma confissão/testemunho de como estar na vida.

Os verbos são usados no presente, pois é no presente que se vive. Aparece um futuro (mostrará), como expressão da procura de um Deus que tem a certeza de encontrar no mundo real.

Repare-se na ausência de pontuação. Tudo flui, harmoniosamente, naturalmente, ao ritmo tranquilo do rio que corre pacificamente para o mar.

 

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