FESTA DO BODO EM BARREIRO DE BESTEIROS

????????????????????????????????????
tempo de leitura: 5 minutos

FESTA DO BODO

Seu princípio perde-se na noite dos tempos

Ninguém sabe ao certo quando terá começado. Segundo alguns autores como Frei Agostinho de Santa Maria, remonta ao século XIV, embora outros investigadores afirmem tratar-se de uma tradição já milenar.

Qual a origem desta Festa? Talvez não seja muito fácil encontrar uma ideia acertada, mas os mais idosos dizem que começou com a intenção de rogar a Deus a protecção às culturas agrícolas, especialmente livrá-las das secas e das pragas de gafanhotos.

Em local aprazível, abundante de água e de sombra, distante 800 metros da sede de Freguesia, num recinto terreiro e inclinado, bem junto à Serra do Caramulo, foi erguido um templo a Nossa Senhora, onde no primeiro Domingo a seguir ao dia 25 de Julho (Festa de S. Tiago), lhe é rezada Missa de agradecimento e de louvor pela protecção das culturas.

Depois da cerimónia religiosa, é servido pelo Mordomo (todos os anos há um) e também em sinal de agradecimento, o Bodo aos Pobres, constituído por uma farta refeição. Seguidamente, os lavradores da Freguesia abrem os seus cestos e, num franco convívio, almoçam debaixo da fresca sombra de árvores seculares, sentados em mesas de lousa, pertencentes a si ou à sua família. Estas mesas estão agrupadas em filas de 30 metros cada e dispostas em anfiteatro. O templo actual, conhecido por Capela de Nossa Senhora do Rosário, foi restaurado em 1853 e, mais recentemente, também em 2007.

Segundo Frei Agostinho de Santa Maria, a mudança da invocação de Nossa Senhora dos Verdes para Nossa Senhora do Rosário, terá ocorrido por volta de 1574, tendo também sido venerada como Nª Sª dos Prazeres, Nª Sª da Ribeira e Nª Sª da Capuchinha.

  • “QUANDO SE PERDE A MEMÓRIA
  • PERDE-SE A HISTÓRIA”

Esta, é a história conhecida, contada de geração em geração e hoje, quase não havendo lavradores como antigamente, nem pobres na freguesia, a Festa do Bodo não deixa de realizar-se por isso, como aconteceu no Domingo, dia 30 de Julho.

Sob o copado arvoredo, de sombras refrescantes, o grande dia da Festa do Bodo, foi iniciado com a celebração da missa, pelo pároco da freguesia, padre Alcides Vilarinho, muito bem acompanhada pelo coro da paróquia, tendo o padre missionário comboniano, José Francisco de Matos Dias, feito uma brilhante homilia e que, em conversa com o nosso jornal, disse que está prestes a regressar ao Benin, ele, que já esteve a trabalhar no Togo durante 22 anos, país que fica no golfo da Guiné.

No final da eucaristia, o padre Vilarinho, falando da Festa do Bodo e da sua ancestralidade, disse que “quando a gente perde a nossa memória perde a nossa história”, num tempo diferente do passado, em que havia mesmo pobres, num tempo de partilha, mas que hoje “somos nós que devemos manter as nossas tradições” e, assim, apelava para que a festa, única, do Bodo, nunca acabe.

  • UMA TARDE MARAVILHOSA ONDE NÃO
  • FALTOU O FOLCLORE

Após a procissão em volta das mesas, os mordomos de 2023, serviram então a farta refeição, àqueles que tinham necessidade dela, para retemperar energias, composta de frango assado no forno com arroz e salada, num primeiro prato e chanfana com batata cozida, tudo regado com excelente vinho, num ambiente de franca e salutar cavaqueira, entre pessoas da freguesia, mas também de outras partes do concelho de Tondela e até de concelhos vizinhos. Foi curioso ver muitos jovens, de ambos os sexos, oriundos de vários pontos do país, a servirem, descontraidamente, às mesas.

Entretanto, outros romeiros, famílias inteiras, iam abrindo os seus cestos de comida, onde não faltaram as mais saborosas iguarias, quase regra geral, compostas de peixes do rio em molho de escabeche, chanfana ou leitão à moda da Bairrada, ali confraternizando durante uma tarde de muita alegria e animação, saindo dali, ao fim do dia, naturalmente, mais reconfortados e em paz de espírito, porque o sítio é idílico, porque o lugar é de paz e de partilha.

Os mordomos de 2023, foram os irmãos emigrantes na Suissa, José Maria da Costa e Carlos da Costa, este já regressado e a viver no Barreiro, os quais se dispuseram a servir aqueles que tomaram lugar nas velhas mesas de lousa.

Durante a tarde, fizeram-se ouvir com muito agrado, o Grupo de Concertinas da Escola de Concertinas João Gonçalves, de Castro Daire e o Rancho Folclórico “Rosas do Tourigo” (Tondela), que mantiveram, durante horas, a presença de muito público.

  • RECINTO SEMPRE COM MELHORIAS

O presidente da Junta da União de Freguesias de Barreiro de Besteiros e Tourigo, José Helder Alves, falou das obras que, durante os anos são realizadas no recinto do Bodo e parques de estacionamento, mas que nem tudo está feito, deixando claro que o dinheiro gerado, reverte para essas obras. Referindo o esforço dos mordomos, o autarca teve oportunidade de lhes agradecer, tanto mais que foram eles que contrataram a empresa dos insufláveis, que fizeram as delícias das crianças naquela tarde agradabilíssima no recinto do Bodo, sob a protecção da Senhora dos Verdes ou do Rosário, tão bafejado pelos ares reconfortantes da Serra do Caramulo.

Nesse contexto, José Helder quis deixar a todos uma boa notícia, que tem a ver com a oferta do terreno que envolve as cozinhas do santuário, oferecido pelos irmãos Arménio e Maria da Luz, para aumentar e ligar todo o espaço entre si, sendo anunciado que, no futuro, iria haver uma comissão que vai administrar o recinto do Bodo, tendo palavras de agradecimento a quantos se disponibilizam para fazerem parte da comissão de festas e daqueles que se encarregam de oferecer o Bodo, tendo ainda anunciado os mordomos da Festa para 2024, que são Mário Pereira, Ana Rita e Maria da Fé.

Com a exibição do Rancho “Rosas do Tourigo” e os acordes musicais da empresa “Ideal Som”, de Molelinhos, pela tarde fora, assim terminou, em beleza, mais uma Festa do Bodo na freguesia do Barreiro de Besteiros, que se crê ser única no género na Europa e, segundo alguns, no Mundo.

ZÉ BEIRÃO