“POR MORRER UMA ANDORINHA NÃO ACABA A PRIMAVERA”

  • Há no homem o fascínio pelo poder, a ambição, a ganância, o desejo de ser o rei, o mandão, o que decide, convencido que pode tudo.
  • Mas, não pode.

De vez em quando, leva um cachação que o reduz à sua fragilidade, à sua condição de simples elo da cadeia da vida, sem privilégios, nem ferramentas, nem qualificações especiais. Este vírus que nos atormenta, veio, subitamente, reduzir-nos à nossa insignificância. 

E, então, pumba! Vamos do oito para o oitenta. Está tudo mal. Criámos o caos. Nada presta. E eis-nos a pregar o regresso à vida simples, em contacto com a natureza. Não é a primeira vez que isto acontece. Nem será a última. Já os gregos e os romanos, cansados de guerras, de ganância, de humilhação, de degradação, se viraram para um ideal de vida que ficou conhecido por “aurea mediocritas”, isto é, um ideal de vida em que o homem se contentaria com uma vida equilibrada, sem excessos, em cumplicidade com o natural. Horácio escreveu:

Vive com pouco e bem aquele a quem
pátrio saleiro esplende à mesa simples
e não lhe rouba o sono, o medo e a inveja,
sórdido vício.

Por que, assim, tanto, intrépidos, visamos,
se a vida é breve? Buscar outra terra,
sob outro sol? Mas quem, fugindo a pátria,
foge a si mesmo? (In-Ode 2)

Também se conhece o destino de Ícaro que, infectado de ambição, quis subir, subir até  junto do sol, mas, como as asas eram de cera, o calor derreteu-lhas e acabou espatifado, no chão.

Regressando aos dias de hoje.

Andávamos por aí, donos de maquinetas ilusórias, teclando, teclando, esquecidos de viver a vida real. Vida real? O que é isso? Já nem dávamos por ela.

Errámos, é verdade, mas, ninguém apagará as conquistas feitas. A chama da luta por um mundo melhor, pela dignidade humana, pelos valores não se apagou. E começa a reacender-se. Percebemos rapidamente que vivíamos uma vida sem vida, de rotinas vazias. E eis que, como é típico do homem, regressámos à luta.

Queremos, outra vez, assumir o comando dos nossos destinos, fugirmos das rotinas caóticas que nos manipulavam, regressarmos ao real, ao equilíbrio, ao campo, à natureza, ao dia-a-dia que nos escapava.

Não foi o vírus que trouxe o caos. Não. Nós é que vivíamos no caos, sem percebermos. Éramos apenas fantasmas, sombras alheias à vida e da vida. Afinal, não éramos ninguém. Desumanizados, sem alma nem coração. Zombies.

Felizmente, o vírus mostrou-nos, à evidência, que não éramos donos de nada, que não mandávamos em nada, que apenas não éramos. Como o homem, mau grado as aparências que o condenam, não é burro, decidiu que, afinal, não queria ser uma maquineta sem um pingo de humanismo, mas queria, antes, reavivar  a luta pelos valores que o tinham transformado numa pessoa, com direitos, com deveres, com valores fundamentais para viver consigo mesmo e com os outros.

Por quanto tempo, o medo presidirá a esta revolução que trouxe o homem à simplicidade da vida, ao respeito pelos outros e pela natureza, à consciencialização de como foi importante a sua caminhada pela dignidade humana, uma dura e longa caminhada que, sabe-o agora, valeu a pena? Depende de nós todos e de cada um.

  • EGOÍSMO, GANÂNCIA, CRUELDADE, DESPREZO PELO OUTRO: OS VÍRUS MAIS DESTRUIDORES

Esquecera-se de que a luta pela dignidade humana nunca termina, é uma revolução sempre em curso. Desarmada da nossa atenção, rapidamente os vírus mais danosos e destruidores, como o egoísmo, a ganância, a crueldade, o desprezo pelo outro, a cupidez, a luxúria, e outros que tais, depressa voltarão a atacar. Tenhamos bem presente que o sofrimento faz parte de todas as novas etapas da civilização. É da história. E, não há dúvida que encetámos uma nova etapa rumo ao futuro.

Por aqui me fico.  Melhor que eu já outros o pensaram, o viveram e o contaram. Sobretudo os poetas, os meus sábios preferidos. Demos a palavra a Fernando Pessoa:

Posso ter defeitos, viver ansioso
e ficar irritado algumas vezes mas
não esqueço de que minha vida é a
maior empresa do mundo, e posso
evitar que ela vá à falência.

Ser feliz é reconhecer que vale
a pena viver apesar de todos os
desafios, incompreensões e períodos
de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos
problemas e se tornar um autor
da própria história. É atravessar
desertos fora de si, mas ser capaz de
encontrar um oásis no recôndito da
sua alma.

É agradecer a Deus a cada manhã
pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos próprios
sentimentos.

É saber falar de si mesmo.

É ter coragem para ouvir um “não”.

É ter segurança para receber uma
crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?

Guardo todas, um dia vou construir
um castelo…
Fernando Pessoa”

LEONEL MARCELINO