QUASE ME APETECE ABRAÇAR O INIMIGO…

Afinal, a pandemia encarregou-se de reduzir o arrogante animal conhecido por homem à sua fragilidade natural e à sua insignificância, quando se desprende da sua humanidade para se reduzir, qual zombie artificial, a um algoritmo manipulado e manipulável.

Sentado no meu canto da esplanada, a curtir o sol algarvio e o prazer de me sentir homem, via-as/os passar, de calças rasgadas e olhos vazios, a teclar, sem destino, nem norte, nas maquinetas que os comandam.

Se não eram zombies, imitavam muito bem. Tal e qual como naquelas séries de mortos-vivos… só faltava vê-los cair e desfazerem-se em caca. O vírus, pelo menos, teve o mérito de limpar as ruas desse lixo. Onde param? Haverá estaleiros que lhes devolvam a sua condição de humanos? Tenhamos, ao menos, o direito à esperança, embora me pareça que, quando dominarem o medo, regressem, mais loucos e mais convencidos de se terem perdido numa qualquer nuvem, a ouvir as harpas dos anjos. Enfim, haverá algoritmos para todos os gostos…

Mas, entretanto, deixem-me agradecer ao vírus os benefícios recebidos e já evidentes na nossa casa natural – a Terra. Menos vícios, menos corrupção, menos ambição, menos oportunidades de escoicinharem a terra e os mares a explorar carvão, petróleo, outras energias e riquezas, resultaram em oportunidades para a recuperação do ambiente, com mais bem-estar, mais felicidade, mais alegria natural, mais saúde física e mental.

Mas, outras aprendizagens aconteceram. Eis algumas:

– o “eu” é nada sem o “tu”. Sem criarmos laços, não somos ninguém. Juntos, viveremos; separados, não temos futuro. Quero trazer ao caso, as palavras do Papa Francisco, na sua mensagem do Domingo de Páscoa: não é o tempo de continuarmos a ouvir palavras como “indiferença, egoísmo, divisão, esquecimento”.

É TEMPO DE SOLIDARIEDADE

Infelizmente, pessoas que deveriam ser responsáveis, elevam-se a ídolos de tontos adoradores de umbigos, incapazes de soluções bondosas e solidárias para teimarem nas suas guerrinhas vaidosas, populistas e fatais para si e para os seus seguidores, condenando à morte centenas de milhares de pessoas, como já está a acontecer  nos Estados Unidos da América e no Brasil, quiçá, com tendência para se agravar a nível mundial, pois será sempre mais fácil promover os deuses dos cifrões do que impor sacrifícios de mudança. A quem servirão os milhões quando não houver pessoas? É tempo de solidariedade, de bondade, de criação de laços saudáveis, verdadeiros, próprios de quem preza a vida acima dos prazeres fúteis e dispensáveis.

–  a inovação, esse futuro ainda por descobrir e que, de modo resumido, consistirá em pôr as novas tecnologias ao serviço das pessoas, em vez de as escravizar. A inovação é uma esperança para um modelo de civilização mais pensado para defender, incentivar, promover um modo de vida de todos para todos, em todas as áreas, desde a educação, a cidadania, os direitos humanos, a cultura, os tempos livres, enfim, é um futuro com potencial para criar um mundo de pessoas para as pessoas, sem barreiras vesgas, redutoras, umbilicais, egoístas, interesseiras.

Todos queremos mais justiça, mais igualdade, mais liberdade responsável, mais ética, mais solidariedade.

LEONEL MARCELINO