Aldeia milenária em festa inaugura monumento à efeméride
Remonta ao ano de 976 – século X – o testamento de VILLA FERRARIOLOS, sendo, por esse facto, das terras mais antigas do actual concelho de Tondela, citadas em documentos oficiais, sendo, naturalmente, da mesma altura, outras localidades da região, entre elas a “villa de Tondella”.
Em 1955, o então correspondente da “Folha de Tondela”, António Ferreira Liz, escrevia para uma revista na altura da inauguração do novo Hospital de Tondela, asseverando que esta freguesia, confinante com Mouraz e Tonda, era “uma das mais antigas povoações do distrito de Viseu”.
Conheci bem o homem, baixo de bigode e cabelo branco como a neve, que vinha de Ferreirós a pé para Tondela onde, na tipografia do jornal, deixava a sua correspondência, feita de linguados compridos e letra imensamente miudinha, muitas vezes difícil de decifrar.
Vestindo a pele dos seus conterrâneos, queixava-se, naquela altura, da “exiguidade dos benefícios que lhes têm sido concedidos” – a ponto de nos haver chegado este lamento, repassado de ironia: “A electricidade ronda-lhe à porta, mas não entra”, mas tinha telefone público.
Na luta pelo desenvolvimento de Ferreirós, esteve o antigo presidente da Junta, José Lopes Carreira que, mesmo com problemas de locomoção, nunca se separando da sua bengala, andava que se fartava em prol da sua terra. A luta pela estrada condigna, foi imensa, à qual se aliou o cunhado, Mário Fernandes de Matos, escrevendo vários artigos na “Folha” em favor de um acesso condigno que Ferreirós não tinha, aos quais me aliei com outras crónicas no mesmo jornal e mais tarde continuadas no jornal por mim fundado, “Notícias de Tondela” em 1975.
Em 1976, pelos 1000 anos da aldeia, escrevia eu em título: “Ferreirós do Dão, aldeia milenária clama por justiça”, onde, mais uma vez e continuadamente, ao longo dos anos, se pedia a conclusão da EN 230, entre Tondela e Carregal do Sal.
Só nos mandatos de Carlos Marta (Tondela) e de Atílio dos Santos Nunes (Carregal) depois do virar do século, é que o troço da EN 230 entre os dois concelhos, foi construído, mas deixando Ferreirós de fora dessa via, porque beneficiou Nagosela em detrimento de quem a pedia há mais de 100 anos e que tinha sido preterida pelo Rei D. Carlos, em favor da estrada 337 que servia a terra de Tomaz Ribeiro, nessa altura ministro das Obras Públicas, sucedendo a Fontes Pereira de Melo, ao tempo do Rei D. Luís.
Contudo, o presidente Carlos Marta não deixou o município sem que, de uma vez por todas, desse a Ferreirós, a estrada tão ansiada e há muito justificada. É que Ferreiros, tinha um caminho estreitinho, de terra batida, cheio de curvas e curvinhas, com muita lama no inverno e poeirenta no verão. É claro que merecia a ligação directa ao novo troço da 230, mas ficou com uma recompensa, que é aquela via que serve a freguesia ribeirinha, com ligações ao Carregal, através das freguesias do Sobral e de Cabanas de Viriato, ao caminho-de-ferro da Linha da Beira Alta e a Lajeosa do Dão e Viseu.
A partir daí, Ferreirós não parou no tempo, sendo contemplada com outros melhoramentos, fruto da boa cooperação entre Junta e Câmara Municipal e irá continuar no futuro, pois quem olhar do alto do Vale do Galego, vislumbra quase uma meia vila, senão uma vila de corpo inteiro, que se eleva num gracioso promontório, entre-os-rios Pavia e Dão.
A variante à freguesia, foi, ainda, um dos grandes melhoramentos da aldeia, tirando o trânsito de ruelas apertadas e labirínticas. Terra de muita emigração, soube edificar imensas vivendas por todo o lado, que dão um ar modernista a uma aldeia milenária.
Campo de futebol, Casa do Povo, estrada para Tondela e Lajeosa e defesa dos rios que banham a aldeia, foram outras lutas em prol de uma terra que pode ser, no futuro, uma nova vila do concelho de Tondela, a par de Parada de Gonta. E, aqui, naturalmente, estarão razões históricas.
HOMENAGEM AOS FERREIROS
A festa de 2026, coincidiu com as Festas de S. Cristóvão, que tiveram o seu ponto alto no sábado, dia 25 de Julho, com a inauguração de um monumento modernista, em ferro forjado, onde aparece, em recorte, uma figura de homem a trabalhar o ferro, aludindo à origem da povoação, onde esteve a presidente da Câmara Municipal de Tondela, Carla Borges, que deixou palavras de apreço e de elogio às gentes de Ferreirós, afinal um povo bairrista que luta sempre, sem desfalecimentos, por uma terra melhor.
Nesse monumento, pode ler-se “Ferreirós do Dão – Terra milenar”, que fica a perdurar pelos tempos que hão-de vir, a caminho dos 1100 anos, em 2076, que a esmagadora maioria daqueles que hoje têm mais de 50 anos já não estarão cá para ver…
ZÉ BEIRÃO
NOTA: Em termos de sinalização existe uma gritante falta da indicação da sede do concelho, na rotunda que serve Lobão e Tondela, junto ao Vale do Galego. Existe uma placa com a indicação de União de Freguesias de Mouraz e Vila Nova da Rainha e nada mais, não se indicando o caminho para a cidade. Aliás, isto acontece em tantas outras situações. Parece que querem “esconder” a evidência da cidade, que se expande a olhos vistos através da iniciativa privada.










