A IMPORTÂNCIA DA LEITURA (2)

No seguimento do artigo anterior “A Importância da Leitura”, apresentamos, hoje, um poema de Daniel Filipe, como simples exemplificativo de como podemos fruir a leitura, enriquecendo-nos interiormente pela beleza do uso da linguagem, riqueza dos sentimentos e das emoções.

E mais não digo. Tentem usufruir da arte de Daniel Filipe, esse extraordinário autor luso-caboverdiano quase desconhecido nas nossas escolas, para nossa vergonha.

Daniel Filipe

O autor:  Nasceu na Ilha da Boavista, Cabo Verde, em 1925. Morreu em 1964. Funcionário da Agência Geral do Ultramar, combateu ideologicamente a ditadura de Salazar. Sofreu prisão e torturas da PIDE.

Poeta e jornalista, colaborou nas revistas Seara Nova, Távola Redonda, Bandarra, Cabo Verde, O Diabo. Com outros poetas, dirigiu Notícias do Bloqueio, uma série de nove fascículos de luta ideológica e social.

Começou pelos temas africanos, acabando na corrente neo-realista ligado a temas do ser, da solidão, da paz, do amor, da cidade.

Deixou-nos Missiva (1946), Marinheiro em Terra (1949), O Viageiro Solitário (1951), Recado para uma Amiga Distante (1956), A Ilha e a Solidão (1957) – Prémio Camilo Pessanha, O Manuscrito na Garrafa (1960), romance, A Invenção do Amor (1961), Pátria, Lugar de Exílio (1963).

Lutaremos meu amor

  • Pelo silêncio na planície pela tranquilidade em tua voz
  • pelos teus olhos verdes estelares pelo teu corpo líquido de [bruma
  • pelo direito de seguir de mãos dadas na solidão nocturna
  • lutaremos meu Amor
  • Pela infância que fomos pelo jardim escondido que não teve o [nosso amor
  • pelo pão que nos recusam pela liberdade sem fronteiras
  • pelas manhãs de sol sem mácula de grades
  • lutaremos meu Amor
  • Pela dádiva mútua da nossa carne mártir
  • pela alegria em teu sorriso claro pelo teu sonho imaterial
  • pela cidade escravizada pela doçura de um beijo à despedida
  • lutaremos meu Amor
  • Pelos meninos tristes suburbanos
  • contra o peso da angústia contra o medo
  • contra a seta de fogo traiçoeira cravada
  • em nosso doce coração aberto
  • lutaremos meu Amor
  • Na aparência sozinhos multidão na verdade
  • lutaremos meu Amor”
  • Daniel Filipe, A Invenção do Amor e Outros Poemas

Tema: A luta por uma sociedade de pessoas livres e felizes.

Assunto: O sujeito lírico convida o seu Amor a lutar pela liberdade, pelo amor, pelo pão, pela solidariedade, pelo direito a uma vida com qualidade, por uma juventude feliz, contra o medo e a angústia.

AS PALAVRAS E OS SONS:

  • Há duas preposições que definem, por assim dizer, a espinha dorsal do poema: por e contra.
  • Por, contraído com o artigo definido o/a (pelo/pela), agrega a maior parte das expressões que compõem o texto.

Pelo/pela:

  • silêncio na planície
  • tranquilidade em tua voz
  • teus olhos verdes estelares
  • teu corpo líquido de bruma
  • direito de seguir de mãos dadas na solidão nocturna
  • infância que fomos
  • jardim escondido que não teve o nosso amor
  • pão que nos recusam
  • liberdade sem fronteiras
  • manhãs de sol sem mácula de grades
  • dádiva mútua da nossa carne mártir
  • alegria em teu sorriso claro
  • teu sonho imaterial
  • cidade escravizada
  • doçura de um beijo à despedida
  • meninos tristes suburbanos;

contra:

  • o peso da angústia
  • o medo
  • a seta de fogo traiçoeira cravada/em nosso doce coração aberto

O poema reparte-se por quatro estrofes de três versos seguidos de refrão (“lutaremos, meu Amor”), terminando por uma espécie de finda de dois versos. Ausência de pontuação. Predomínio dos sons nasais. Alteração das líquidas “r” e “l”. Os complementos do verbo lutar vêm no início de cada verso. Prioridade à coordenação. Domina o verbo lutar, no futuro do indicativo. O poema enfeita-se de metáforas, símbolos, antíteses.

A minha leitura:

A figura feminina, idealizada companheira de luta e de vida, aparece sob a designação “Amor”, de contornos indefinidos, etérea, inatingível, fugidia, como um sonho que se esbate e se persegue sem nunca se alcançar. Os olhos são estelares, o corpo é líquido de bruma, o sorriso é claro, o sonho, imaterial. O poema, na sua simplicidade bela, quase se resume à ideia de uma luta pelas coisas bonitas da vida contra o seu lado feio: a tristeza, a fome, o medo, a violência, a angústia. E não serão as coisas simples as mais preciosas e aquelas pelas quais mais vale a pena lutar?

A estrutura do poema, com refrão, faz lembrar o modelo repetitivo de alguns poemas medievais, o que contribui para uma densificação da mensagem, mantendo a tensão. Por outro lado, lembra-nos o discurso de um comício, com o orador a convocar as massas para a luta. Há a partilha de frustrações e de sonhos comuns, o apelo a uma solidariedade que desemboca no penúltimo verso: Na aparência sozinhos multidão na verdade.

A ausência de pontuação aproxima o texto da oralidade. Percebe-se um certo encantamento pela planície silenciosa em oposição à cidade escravizadora e injusta: Pelo silêncio na planície – pela cidade escravizada, pelos meninos tristes suburbanos…Há uma quase ausência de verbos, pois o sujeito poético quis concentrar os significados em torno do verbo lutar: lutaremos meu Amor. Há apenas três orações subordinadas (relativas explicativas: que fomos; que não teve o nosso amor; que nos recusam). Concretiza-se, pois, uma acumulação de complementos que precedem o predicado (Lutaremos meu Amor) e que constituem, por assim dizer, o programa da luta.

O sujeito poético acumulou metáforas e símbolos de grande beleza para enfeitar o panfleto: ”pelos teus olhos estelares”, “pelo direito de seguir de mãos dadas”, “pela infância que fomos”, “pelas manhãs de sol sem mácula”, “pelo teu sonho imaterial”, “pela cidade escravizada” “ pela doçura de um beijo”, “Pelos meninos tristes suburbanos”…

Entre os inimigos da vida com qualidade, incluem-se implicitamente aqueles que estão por detrás dos “meninos tristes”, da “cidade escravizada”, da “angústia”, do “medo”, da “seta de fogo traiçoeira”: a falta de trabalho, a opressão, a liberdade negada, as prisões arbitrárias, os sonhos liquidados, os bairros degradados das periferias das cidades. Ao fim e ao cabo, o grande inimigo da sociedade moderna representa-se por cidades desumanizadas, mal planificadas, autênticos guetos de gente infeliz. Que melhor do que a cidade, com todas as assimetrias e contrastes, com todos os sonhos e frustrações acumulados para simbolizar um combate falhado, numa civilização frustrada?! Tenhamos presente que as cidades deveriam ser as sedes da cidadania.

O ritmo flui suavemente, como o lamento de um rio de lágrimas que corre ao sabor da mágoa. A pontuação omitida, uma espécie de rima interior (planície/líquido/seguir; voz/olhos), a sucessão de sons líquidos (-l- e –r-) e o recurso a elementos, como o refrão e a intercalação de expressões curtas com longas, acentuam o ritmo dolente:

  • Pelo silêncio na planície”
  • “pela tranquilidade em tua voz”
  • pelos teus olhos verdes estelares”
  • “pelo teu corpo líquido de bruma”
  • pelo direito de seguir de mãos dadas na solidão nocturna”
  • lutaremos meu Amor

As antíteses finais: aparência-verdade, sozinhos-multidão (“Na aparência sozinhos multidão na verdade”) associam os interesses individuais aos colectivos, legitimando assim uma luta, que é de todos, por uma vida com mais qualidade a que presida a fraternidade.»

LEONEL MARCELINO

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